sábado, fevereiro 04, 2006

Sou contraditório

"Quanto mais estudo, menos sei, quanto mais me entendo, menos me encontro. Admito existirem pessoas centradas, bem resolvidas, autênticos monumentos de estabilidade e fé. Não sou assim. Sou contraditório; não tenho, muitas vezes, um sólido eixo acadêmico; e reconheço que vivo com muitas crises emocionais. Inúmeras vezes, sinto-me companheiro dos salmistas que achavam que Deus havia se escondido deles."

Esse texto é de Ricardo Gondim, que ultimamente tem sido bombardeado devido alguns de seus artigos, ou para ser mais preciso, devido a Teologia Relacional, por ele defendida. Não quero me estender sobre o assunto, os meus conhecimentos não me permitem escrever sobre o que desconheço. Sobre o caso, registro que vejo expor sua alma nos seus escritos. Pelo que eu li, seus conceitos não são somente de um arminiano, mas de um homem sincero nos seus conceitos ou em sua teologia, um teólogo, que além de teólogo é pastor. O problema reside na interpretação de seus artigos, que não foram compreendidos ou foram compreendidos, certo é, geraram polêmica. Talvez estejam certos, e Gondim está trilhando um caminho que o tempo dirá o seu destino. Para onde está indo? O amanhã dirá. Que os teólogos cheguem as suas conclusões, eu tenho as minhas, e confesso, são precárias.

Citar o texto do artigo "Desviado ou encaminhado na fé. Eis a questão", tem por objetivo apenas registrar que também me considero contraditório. Ao ler o texto observei que estava lendo o que eu sou, como me defino às vezes. Infelizmente, tenho que confessar, não tenho estabilidade nos meus conceitos, sou volúvel e incoerente se tratando de teologia, ou melhor, das diversas linhas teológicas. O que eu sou? Ou o que defendo? O que eu creio?

São muitas as linhas teológicas e todas tem um certo laço que as une. Podemos citar a Teologia Reformada, Teologia Luterana, Teologia Arminiana, Teologia Wesleyana, Teologia Neo-Ortodoxa, Teologia Liberal, Teologia da Libertação, e outras e outras, teologias... Se tratando das diversas linhas teológicas, tenho que confessar que sou contraditório, ambíguo. Há momentos que estou defendendo posições reformadas, em outro postulados arminianos, e às vezes me encontro na "minha teologia", que é de ninguém, é minha (não é presunção, mas loucura).

Quantas teologias! Quantas definições! Sim, tenho a Bíblia Sagrada como única regra de fé e prática e defendo com a alma o Sola Scriptura. Creio na inspiração verbal, plenária e infalível da Bíblia. Passo horas e horas lendo sobre calvinismo e arminianismo, e me pergunto se há espaço entre os dois, pois se houver quero um lugar, pois sou contraditório.

8 comentários:

JOINCANTO disse...

É. Tou aí também.

Nagel disse...

Fala Vágner! Tudo bem contigo? Há um tempo que não nos falamos.

Quanto às dúvidas, elas não são de todo ruim. Muito pelo contrário, certamente são elas que proporcionam o estudo, a reflexão, etc. O problema passa a existir quando encontramos dúvidas fundamentais na cabeça de quem foi chamado a ensinar e pastorear o rebanho de Deus. Você pode ter esse e qualquer outro tipo de dúvida, o Gondim não. Não porque ele é super-homem, ou mais ungido, nada disso. Simplesmente porque Deus o chamou para ser um mestre na igreja, e se ele não é capaz de tal tarefa, que dê licença a outro. Fora do encargo do ensino da igreja, ele pode duvidar de tudo, ninguém o incomodará.

Eu te aconselharia a não se preocupar demasiadamente com os rótulos (no bom sentido). Não se preocupe em ser "reformado", ou "pentecostal", ou "liberal", ou "arminianista", etc. Você disse do seu zelo pelas Escrituras. Pois bem, tudo começa aí. Se ao final de cada pensamento você puder terminar com uma certa tranquilidade por crer no que ela afirma, isso é algo bom.

Aparece no MSN. Daí batemos aquele bom papo.

Abração.

Paulo Brabo disse...

Vagner,

É música ouvir um cristão como você e como Gondim ousando admitir em público que "não estão prontos" - que somos contraditórios, que não sabemos tudo e não temos como saber. Uma confissão dessa natureza requer não apenas humildade, mas - em particular - maturidade.

Jacques Ellul faz uma distinção entre "fé" e "crença" que me ajuda a entender minhas próprias dúvidas e a importância delas no desenvolvimento espiritual.

Algumas citações do que ele tem a dizer sobre o assunto:

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida.

A crença provê respostas a nossas perguntas, a fé nunca o faz. Cremos para encontrar segurança, solução, uma resposta para os nossos questionamentos. As pessoas crêem para desenvolverem para si um sistema de crenças. A fé (a fé bíblica) é completamente diferente. O propósito da revelação é fazer com que ouçamos as perguntas, e não suprir-nos com explicações.

A fé isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, quer seja religiosa ou social, falando o mesmo dialeto. A crença age como apaziguadora na sociedade, ela é a chave para o consenso que buscamos, o definitivo e há muito proclamado como necessário elemento essencial da vida comunal. A fé sempre trabalha de maneira exatamente oposta. A fé individualiza; ela é sempre e exclusivamente uma questão pessoal. Fé é o relacionamento pessoal com um Deus que se revela como uma pessoa. Esse Deus singulariza a pessoa, coloca-a à parte, e confere a cada pessoa uma identidade que não é comparável à de nenhuma outra. A pessoa que ouve a palavra de Deus é a única a ouvi-la; neste ato ela está separada das outras pessoas, e nele ela torna-se única – simplesmente porque o elo que liga esse indivíduo a Deus é único, exclusivo e inviolável. Trata-se de um relacionamento singular com um Deus único e absolutamente incomparável.

“Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade”(Marcos 9.24) são as palavras que resumem o que é a fé. A fé me constrange acima de tudo a avaliar o quanto não vivo pela fé – o quão raramente a fé enche a minha vida.


Mais aqui:
http://www.baciadasalmas.com/2005/fe-e-crenca/

Vagner Ramos disse...

Jorge, seus comentários sempre são bem-vindos, e seus posicionamentos serem iguais aos meus me ajuda na jornada.

Gustavo, grande amigo, realmente estou um pouco ou totalmente ausente do msn, porém depois conversaremos e como precisamos conversar, preciso de seu auxílio. E obrigado por seu conselho, os rótulos são prejudiciais em certos pontos e concordo com você. Sola Scriptura!

Paulo Brabo, obrigado pelo seu excelente comentário e pelo texto citado, ler argumentos como o seu é doce música. Abraços.

Vilma disse...

Venho aqui algumas vezes e continua a deparar-me com este texto. Apesar de não teres um post novo, a verdade é que não me canso de reler este... é fantástico! :))

Rodrigo de Vasconcelos disse...

Vagner, primeira vez que venho aqui. Quem me apresentou foi o Nagel (de quem gosto muito).

E por isso concordo com ele. Buscar um rótulo agora é complicado e sobre o Gondim, confesso que sofri quando vi o debate que caiu sobre ele. Li várias coisas dele, e sempre me identifiquei com a veia poética dele.

E tenho um pouco disso que você fala. Me identifico com uma linha, depois com outra, depende da ênfase do meu momento.

Adorei o texto. Voltarei...

Tinoca Laroca disse...

"E chegando Jesus a Cesareia de Filipe interrogou os seus discipulos com a seguinte pergunta: Quem dizem as pessoas que eu sou? eles responderam-Lhe: Uns dizem que és João Baptista, outros dizem que és Elias e outros ainda dizem que és Jeremias, e outros ainda que és um dos profetas. Jesus perguntou-lhes: E vocês, quem dizem vocês que Eu sou? Simão Pedro respondeu-Lhe: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus respondeu a Pedro dizendo-lhe: Bem aventurado és Simão Barjonas porque não foi a tua carne nem o teu sangue que te revelaram isso, mas o Meu Pai, que está nos Céus"
Mateus 16:13-17
Falamos muito com a carne e o sangue, pouco com a revelação do Pai.
Eu enfrento as incertezas. Se olhar para a Bíblia com a carne e o sangue, logo desacreditarei da existência de um Deus Vivo, e, a bíblia não será mais do que uma fábula.
Jesus não teve medo das incertezas, vejo-o como um provocador da época. Por isso o mataram.
Actualmente, quando surgem pessoas que saem um pouco do "eixo", pessoas que até têm um comportamento muitas vezes correcto, mas que provocam a hipocrisia das regras (que nunca são cumpridas na plenitude, mas que se escondem atrás de "mascaras"), são sempre "personas não gratas".
Não me posso pronunciar quanto ao autor, apenas me pronuncio contra a hipocrisia teológica.
Não que a teologia seja = hipocrisia, mas que teologia desprovida de Amor não me serve. Teologia desprovida da Revelação do Pai não me serve.
Por isso, Jesus é o Filho do Deus Vivo. Eu sigo esse Jesus. Quero lá saber do resto.
Viva a ambiguidade, viva o paradoxo, vivam as incertezas. Viva a CERTEZA da VIDA ETERNA!

Vagner Ramos disse...

Vilma, obrigado pelo incentivo, você é um amor de pessoa.
Rodrigo, obrigado pelo comentário, vou também passar pelo seu blog.
Tinoca, com certeza Teologia desprovida da revelação do Pai, não nos serve.
Abraços a todos.