sexta-feira, janeiro 20, 2006

Antes acusado pelo demônio

No Sermão da Segunda Dominga do Advento, Vieira afirmou que antes quisera ver-se acusado do demônio do que julgado de homens:

"Porque os demônios apenas acusam as obras e palavras, ao passo que o homem julga e condena até os mais íntimos pensamentos, muito embora os não possa conhecer. No juízo de Deus as nossas obras defendem-nos, no juízo dos homens o maior inimigo que temos são as nossas boas obras. Não há maior delito no mundo do que o ser melhor. Um grande delito mais vezes achou piedade; um grande merecimento nunca lhe faltou a inveja. No juízo de Deus perdoam-se os pecados como fraquezas; no juízo dos homens castigam-se as valentias como pecados. Deus vos livre de vossas obras, e muito mais das grandes, pois muito mais seguro é ir com pecados ao juízo de Deus, que com milagres ao juízo dos homens! Em Deus há misericórdia, na inveja não há perdão."

Um comentário:

Paulo Brabo disse...

Excelente. A lucidez vertiginosa de Vieira todo cristão sensato deveria estar resgatando.

Curto particularmente o seguinte raciocínio do Sermão da Sexagésima:

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém?

Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.

Quis Deus converter o Mundo, e que fez? – Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: No princípio era o Verbo. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: E o Verbo se fez carne. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo.

Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Então o veremos como ele é; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: A fé vem pelo ouvir; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita.

Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.